Sim… A minha história é triste. Nem toda a gente gosta de a ouvir… Mas cá vai:
Nasci num dia de chuva, o que mais lembro é de estar muito frio e da minha mãe me aquecer, a mim e aos meus irmãos, perto da barriga dela. Era óptimo o amor que ela nos dava… Sempre preocupada, sempre atenciosa… Sem dúvida a melhor mãe do Mundo! Mas o tempo com ela passou a voar e eu já estava crescidinho… Já estava pronto como eles diziam! Eles… Não os posso culpar do que me aconteceu por que sei que não era o que queriam para mim.
Lá chegou o tão esperado dia. Dizer adeus à minha mãe… Custou! Custou muito… Passei os dias seguintes a chorar com saudades. Mas também não era mau de todo! Tinha a atenção toda que queria e precisava. Comida, passeios, carinhos, tudo! E crescia saudavelmente, o que me fazia feliz. Só conseguía pensar no quão orgulhosa a minha mãe devia estar de mim! Fiquei finalmente adulto! Estava mesmo feliz… Já podia ir ter com amigos meus e dizer “eu sou adulto”. Mas foi aí que tudo mudou! Levaram-me num passei… E nunca mais voltei àquela casa onde cresci…
Fiquei perdido! Na altura só me apetecia descobrir o caminho de volta a casa, mas era impossível! Passeei pela cidade durante semanas… Todos os dias procurava algo que se pudesse comer no lixo ou assim… Lá me ia alimentando mal, mas ao menos sobrevivia! Andei assim um mês, sempre com a esperança que a minha família voltasse atrás à minha procura… Mas isso nunca aconteceu!
Mesmo assim dizem que tive sorte… Sorte? O que é isso? Só sei que me encontraram… Não foi bem quem eu estava à espera, mas deu-me tudo o que eu precisava! Era um senhor já de idade que vivia sozinho. Pegou em mim e levou-me para casa dele. Deu-me amor e tudo o que eu já tivera e já perdera, fez-me feliz… Ainda vivi com ele 3 anos. Foram 3 maravilhosos anos em que ambos passeávamos de manhã e de tarde, ficávamos juntos a ver tv à noite ou quando chovia, dormia sempre aos pés dele e acordava-o com carinho… Até que um dia ele não acordou! Fiquei aflito e fiz de tudo para o acordar… Tudo o que eu podia. Não sei explicar bem o que aconteceu, mas o meu barulho deve ter chamado a atenção dos vizinhos que apareceram e chamaram o médico. Pelos vistos ele tinha morrido. Dias depois foi o funeral. Só vi as pessoas a chorar perdidamente… Aquele dia triste. Até o tempo estava triste! Mas todos os que choraram viravam as costas e iam embora… Eu não percebia porque o deixavam sozinho ali. Fiquei com ele! Fiz-lhe companhia como fazia todos os dias. Desde esse triste dia que vivo ao pé dele… Sei que não posso dar os longo passeios matinais nem ver tv com ele, mas sinto que ele está perto de mim e isso para mim chega…