Um jogo
Um beijo
Um desejo
Que é meu
Que é teu
Que poderia ser nosso
Foste
Fui
Fomos
Foi
Por uma vontade
Por um beijo
Por um desejo
Por mim
Por ti
Por uma tarde
Por uma noite
Por uma manhã
Contigo.
É mesmo lá no cimo, vês?
Depois vens descendo por aqui…
O tempo corre sabes?
Vês tanta gente…
E na verdade, não vês ninguém…
Mas vens!
Desces a praça…
E vais mesmo pela baixa, estás a ver?
E é ali!
É ali que o padrinho e a madrinha te baptizam…
Lembro-me das palavras que me disseram…
Como se cada palavra fosse uma gota de água…
Caia…
E as palavras ficavam gravadas para sempre…
Caia…
Foi o primeiro momento em que eu me senti em família…
Caia…
Irmã mais nova de alguém!
Caia…
Porque as palavras que me disse são verdadeiras,
Caia…
Porque sei que vai sempre olhar por mim,
Caia…
E porque são os melhores anos das nossas vidas!
Caia, daquele penico azul escuro, a água do Mondego…
Deixa o sonho dos sapatinhos de cristal e sente com os teus próprios pés os árduos caminhos da realidade…

Aquela noite até estava bonita, tinha estrelas espalhadas pelo céu e apenas uma brisa passava entre nós. O brilho era por demais evidente… Pelo menos eu sentia-me a brilhar. Os meus pés estavam desconfortavelmente alojados nos sapatinhos de cristal que em tudo combinavam com o vestido perfeito… Nada podia correr mal, e se corresse, ao menos estavas comigo. Vestido a rigor para me acompanhares e para não me deixares sentir insegura. Não era apenas um fato e uma gravata, era o melhor fato e a melhor gravata.
Esta noite não passava por um simples estar com um amigo, era algo mais. Casino, jantar, era o meu Baile de Finalistas e tu ias comigo. Depois de tanto tempo a construir o conto de fadas, eis que me vais buscar a casa e partimos em direcção a um sonho de menina… As expectativas podem, agora, ser consideradas exageradas. Não é todos os dias que acontece uma noite de tal glamour…
Na verdade, o Baile de Finalistas não passa de um momento fútil. Mas foi com esta futilidade que sonhei durante meses e foi nesta futilidade que passei uma noite de princesa acompanhada daquele amigo que posso dizer ser o melhor… Sim, porque não é necessário ser algo mais que um amigo para ser o meu par nesta noite e me fazer sentir como me senti e como me sinto sempre que estou com os meus amigos. Porque são os amigos que me fazem brilhar todos os dias. Eles são as estrelinhas que me acompanham no céu todas as noites…E assim, esta noite foi perfeita… Porque a noite nunca chegou a acabar!

O frio quente que batia na nossa face fazia-nos desejar loucuras. O mar ia e vinha num movimento constante. As nossas pegadas ficavam marcadas no enorme areal por onde passeávamos. De mão dada. Caminhámos num passeio sem fim… Sentámo-nos na areia fria e contemplámos o mar… As núvens cobriam a lua e qualquer astro que do céu nos pudesse observar. E ali. Ali a observar o mar. Ali. Ali com o desejo a aumentar… Fui. Tirei a roupa e fui. Aquele mergulho na água gélida fez todo o meu corpo regelar… Mas soube tão bem! Era a primeira vez que ganhara a coragem necessária para mergulhar nas frias águas do mar em pleno inverno. Tu olhavas-me perplexo. Eu sabia que também tu lutavas contra a tua vontade… Porque não fazer como eu e… E deixa-te ir. Deixa os teus medos e as tuas dúvidas enterradas na areia e vem. Vem ter comigo nesta água fria deste mar sem fim. Vem. E tu vieste.
Brincámos como duas crianças. Brincámos como nunca antes haviamos feito. Brincámos. Naquela praia só nossa. Sem que ninguém nos visse. Naquele sonho. Aquele pequeno sonho que tu sabes ser feito de algodão doce… Como as núvens que tapavam a lua! E naquela escuridão em que a praia se apresentava… Naquela escuridão fria… Nós lembrámos o Verão. Lembramos os longos banhos que tomámos naquela praia e todas as outras aventuras que lá passamos… Lembrámos os nossos amigos e todas as nossas brincaderias… Lembrámos, lembrámos as recordações…

Irrompendo pelo meio da chuva, fazendo frente ao enorme número de gotas de água que caem sem cessar. Eu vou. Eu vou de mochila às costas sem o medo de arriscar… Vou para longe, para me afastar. As poças que se formam rapidamente tentam evitar que eu passe na minha correria desenfreada. Quero avançar o mais rápido possível. Quero deixar que este sítio me contagie e me tente roubar a felicidade… Não quero sentir mais o frio. O frio da tua ausência… Deixa-me sentir-te! Deixa-me aquecer-me enrolada a ti… Só mais uma vez.
A cada passo que dou evito constantemente pisar as poças, mas torna-se cada vez mais difícil. O chão está cada vez mais cheio da pura água e a minha velocidade cada vez mais ofegante… Como se a vida acabasse ao virar da esquina. Como pode a minha vida acabar estando eu tão longe de ti? Se o meu coração alguma vez parar, é tua responsabilidade faze-lo voltar a bater pois ele está na tua mão.
E a água que não pára de cair. Cada gota que embate no chão molhado se desfaz em mil partículas de cristal que se espalham no ar… É algo tão rápido e tão perfeito que, por um segundo, te tira do meu pensamento. A cada passo que dou o nosso pensamento está mais perto… A cada passo que dou algo de mim vai ficando para trás… Nem tudo o que amamos pode acompanhar-nos nas nossas maiores decisões.
Paro. Paro porque finalmente te vejo. Paro porque te vejo ao longe. Paro porque tenho medo. Paro. Largo tudo. Largo a mochila. Largo aquilo que me prende. Largo tudo o que tenho. Ali parada à chuva. Dou um passo e volto a parar. Paro. E começo a correr na tua direcção.
Não te queria deixar partir por isso, fiz-me forte, e tomei uma decisão. O teu telemóvel acabara de te transmitir a enorme vontade que eu tinha de estar contigo. Um encontro às escondidas tão igual e tão diferente de todos os outros. Cada segundo contigo é único.
Depois de ir ter contigo e tu comigo. Depois de te ver e saber que íamos estar novamente os dois sozinhos… Fomos à descoberta do sítio onde o céu tocava na terra… O sítio onde tudo o resto era esquecido. E esquecemos. Esquecemos que tu estás longe de mim todos os dias da semana, esquecemos o que os outros podem pensar ou imaginar, esquecemos que eu era eu e tu eras tu… Ficámos um só.
O céu e as estrelas nunca tiveram tão perto de nós. As árvores inundavam a paisagem que nos envolvia e, por detrás do embaciado dos vidros, a cidade iluminada dormia aos nossos pés. E por entre palavras e frases meio perdidas, por entre histórias e desabafos relembrados… A tua historia e a minha historia foram partilhadas e fundidas… E a amizade bateu todos os recordes! E mais uma vez, contigo eu sorri…




